domingo, 1 de março de 2015

Columba Livia

Antes fosse um pombo...
Englobava toda a vida com pena e asas,a vida toda
Não passaria por nada do que passei,nadinha,eu Já estaria morta
Mas ainda assim seria um pombo,um morto pombo
Com uma vida pregressa de pombo,e só isso
Sem emoção !
Sem pensamento !
Sem paranóia !
Sem preconceito !
Sem aluguel !
Sem pedagogia !
Sem opressão social !
Sem grana !
Sem ódio !
Seria só rastro,fóssil,ou carcaça de animal,parte estatística de mortalidade da fauna silvestre
Plenamente útil a biologia
Antes fosse um pombo.

Jess Serafim.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Inconvenientes II

II. O corpo que cai.

Todos os dias,por volta das onze e meia,eu chegava na mesma mesa da mesma praça de alimentação do mesmo shopping para almoçar,isso faz tempo,foi antes desse tal lugar se deixar levar por incêndios misteriosos e devastadores.Mas isso é um outro conto que por vir está.
Num desses dias,enquanto fingia não saber e escolher o que devoraria,me deparei com o que chamo de "liberalismo burro", política aplicada por muitos pais em nosso belo país.
Aparecia a mãe na velocidade da escada rolante e ,aos poucos, surgiu o filho que aparentava dois anos de nascido,solto,solo e serelepe,saiu da escada caminhando em trote tal como o bêbado que cai,e caiu.Tudo muito normal pra quem aprendendo a andar está,ele ciente,nem choro deu e até sorriso ensaiou enquanto tentava levantar.Abanou-se no chão como quem desbrava esses lados obscuros do mar,eu iria prestar ajuda ao toco de ser mas o riso tomara o controle deste que vos fala,e como ri,gargalhei como a tempos não o fazia,como foi bom,o anjinho sem asa veio para me alegrar.
A mãe lhe puxou e encarou-me com a face fechada,confundia indignação e vergonha,outros populares prestaram um olhar sério,corretivo,mas sabia eu que estavam com um desejo enorme de rir.
A comida chegou,já recomposto,ajeitei o corpo no assento e fiquei lá esperando a próxima desnaturada e seu filho babaca.

Allan Bonfim.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Inconvenientes

I - Velha crônica da mulher traída.

Passa pela porta de entrada,e depara-se com a referida Amélia o aguardando no sofá.Sonolenta,ela o encara,sorri e pergunta:
- Tá com fome,amor? Quer q'eu esquente a comida? 
Ele responde:
- Não precisa,querida,comi na rua! 

E ao longo das décadas, dos séculos e milênios fica constatado que "uma comida" dificilmente terá o mesmo significado para canalhas e donzelas.

Allan Bonfim.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Tua Carta

Sei o nome do que sinto,mas seu nome desconheço.Sei da dor,da alegria e do prazer da intimidade,mas como será convosco?
Desculpa,é que fico olhando as palavras que você escreve,pensando naquilo que teu texto produz e,do nada,alguma coisa meio louca me arrebata e fica ecoando ao ouvido enquanto flutuo num ar estranho,tem cheiro de coisa que já vivi e que temo viver novamente.Mas talvez,eu penso,com você possa ser diferente,possa ser algo celestial se você for,e executar,trinta por cento do que escreve.De minha parte,posso garantir-lhe uma grande colaboração pois anseio por felicidade,expressa,pra viagem,pra vida inteira e às vezes imagino a gente de mão dada,fazendo idiotices de casal,fazendo inveja até nos outros porquê nosso amor será lindo,será intenso,tal qual todos que já vivi e viverei e quiçá muito melhor.
Mas por agora,enquanto não compartilho com você o que quero compartilhar com você,fico somente a lhe admirar,no silêncio,no escuro,aguardando a coragem que poderá fazer gritar o coração e trazer sua luz para perto de mim.

Allan Bonfim.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Em tempo

Nem toda água do mundo
Nem um grito estridente e agudo
Nem a pompa de Dom Pedro II.

Nem a farpa no dedo furado
Nem a lágrima no rosto molhado
Nem o cavalo branco e alado.

Nem o estômago doido de fome
Nem o beijo entre dois homens
Nem o preço do teu headfone.

Nem o óculos da tua amiga
Nem a forma da tua barriga
Nem a força incomum da formiga.

Nem todo o ouro do tesouro
Nem o barulho do seu choro
Nem a alegria do cachorro.

Nem a vida como ela é
Nem a beleza inata da mulher
Nem o desenho do profeta Maomé.

Não fará a Terra menos esquisita
Nem a tornará muito mais bonita
Se a mudança não começar por VOCÊ !

Allan Bonfim.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Je suis Charlie

   Não me admira a violência
   A maldade é precisa,
   Pois dilacera a camisa 
   E fere onde dói.
   
   Não me admira a notícia
   Eu visto a camisa,
   Propago a palavra
   E compartilho a dor.

   Não me admira a tristeza
   O cartoon sobre a mesa
   Denuncia sem medo
   Com doída beleza 

   Não me admira a covardia
   Fica marcado como o dia
   Em que a ira sobressaiu  à alegria,
   E a liberdade sucumbiu ao terror.

Allan Bonfim.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Castelo de cartas

Não havia nada escrito,depois,de forma repente,algumas letras invadiram o espaço em branco.
Não por acaso, se alinhando,dando as mãos e até abraçando-se,elas fizeram sentido.
Não por acaso,nem poesia,alguém pôs ali,era o contrário de poesia,era vontade.
Isso era forçado,tinha objetivo,era artificial.
Pois poesia é natural,é essência de uma natureza bela,é cadência literária.
Não é só folha de papel que cede espaço em branco.
Reverberar,parece até poético,mas é político e política reverbera discursos falsos,e firmes,de uma natureza feia,com aspectos de uma coisa morta que pulsa cada vez mais forte,o contrário de poesia.
Então,fez-se o resultado e divulgou-se,pois este era um dos objetivos,não se divagou sobre,pois divagar é poesia e poesia não interessa.
Não por acaso,as palavras iam retirando-se,deixando só uma ideia,de repente cessaram.
O objetivo foi conquistado,se fosse poesia mereceria um Jabuti.
Agora era só esperar.

Allan Bonfim.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Bailarina


Deitada no chão, lembra bem uma península ou rastro de costa qualquer. Observa o teto e, com o olhar fixado parece querer engolir o reboco.
Estica membros e se observa, não chega a nenhuma conclusão de existência ou missão. Ergue as unhas, que são garras, mas não ataca, é como se exibisse ou apenas certificasse que tudo continua no lugar, pronto para o espetáculo. É então que inicia-se: rola o corpo pelo piso e vai deixando suas marcas, seus fluídos, seu cheiro, sua essência.
Num ante desfecho dramático, levanta o pescoço com indescritível elegância exibindo o olhar rompante e assombroso, tem os olhos do demônio. Aí então salta sobre a mesa, gozando d'um equilíbrio que só a bailarina dispõe, deita sem propagar som algum e acomoda sua cauda espalhando-se na face de madeira como fosse água, e tão bonita, é tão completa, é gata.

 

Allan Bonfim.