sábado, 26 de março de 2011

O Romancista

Estava lá sentado em sua cadeira velha,apoiado numa escrivaninha velha que ele insistia em conservar na mobília,apesar do tempo.Tinha a frente um caso difícil de lidar,talvez o mais desafiador de seus trabalhos.Ele,escritor de tantos poemas,poesias e novelas,de repente deu de cara com esta história que lhe fugia,lhe escapava ao seu comum,ao seu gosto.

Era a história de "Natália e Marcos",aparentemente eram um casal comum de jovens,que não fugiam ao script de um romance,pois,eles se apaixonaram loucamente,trocaram emails,que seriam as antigas cartas,ele lhe presenteava com flores e lhe dedicava canções ao pé de um "Karaoquê",que seriam as antigas serenatas,eles noivaram e fizeram planos juntos como os outros casais apaixonados,sobre quem ele sempre escreveu.Porém tudo mudou,aconteceu um pouco depois que ela se formou na faculdade e ele conseguiu sua primeira promoção de cargo.

Eles se casaram,foi aí que o Romancista se viu desesperado,pois ele começou a ver coisas que não eram comuns em romances de sua autoria,algumas ele até fingia não ver,pensava que poderiam ser coisas da nova época,reflexos corriqueiros de uma gente nova,mais "liberal",e o tempo foi passando,ele escrevendo sobre as constantes brigas dos dois,sobre o caso que Marcos mantinha com a recepcionista da empresa,sobre a tristeza de Natália que sabia de tudo mas calava pois no fundo ainda amava,ou pelo menos,assim acreditava o Romancista.

O tempo passou e,de uma rara noite romântica dos dois,nasceu Isabela nove meses depois.A vida parecia estar acalmada e resolvida,alegria para o Romancista,se no aniversário de sete anos de Isabela,Natália não tivesse conhecido Henrique,primo de uma de suas amigas,se Marcos não tivesse retomado o caso com a antiga recepcionista,agora secretária particular.O Romancista estava triste,descrente e arregalou os olhos quando viu o que tinha escrito naquela linha que foi decisiva para a história de "Natália e Marcos" e para sua própria história.

"Marcos passava por uma calçada voltando do horário de almoço quando,de relance,olhou em direção a vitrine de um restaurante e viu Natália e Henrique,a trocarem olhares,carícias e,enfim beijos.Marcos continuou a caminhar em direção ao prédio onde trabalhava,mas carregava um olhar de ódio e tristeza.Conversou com sua secretária e amante,que lhe chamou um homem misterioso,de capa.Ficaram os três dentro da sala por uns cinco minutos,o homem saiu apressado".

O Romancista,boquiaberto com o que escrevera,permaneceu com a caneta por sobre o papel,parada.Estava curioso e,ao mesmo tempo,receoso sobre o que aquelas linhas ainda tinham por revelar,continuou então sua escrita.

"Ás dezoito horas,horário da saída de Marcos,o homem de capa apareceu com um embrulho volumoso,o qual ele entregou à Marcos que lhe deu um bolo de notas aparentemente contadas.Marcos acompanhado de sua amante,pronunciou a seguinte frase:

- Grava bem esse dia,porque hoje,morre a Natália pra mim,só há a Isabela."

O Romancista não podia crer naquelas palavras que saiam da sua caneta,seria um revólver o que trazia o homem da capa?

Teria Marcos,comprado tal arma para dar fim a vida de sua esposa,a mãe de sua filha?

O Romancista entrou em pânico e cometeu seu segundo erro naquela história,o primeiro foi escrever Henrique como um abono pra Natália por ser traída por anos.Este foi ainda mais grave,escrevia um revólver sobre a mesinha de centro,seria então,um modo de Natália se defender daquela armadilha que Marcos estava prestes a fazer,mas no hora do desespero,se esquecem os detalhes,e era detalhe que o dia em questão era uma terça feira,dia que,enquanto Natália se divertia com Henrique,Isabela chegava em casa trazida pela mãe de uma de suas amigas da natação.

O Romancista perdido entre medo,pânico e desespero,cometeu o terceiro erro,o que selava todos os cometidos e ditava por si só os que viriam a acontecer.Escreveu a si próprio,transferiu-se para a história e chegou bem antes que Isabela.Só havia um problema,uma vez dentro da história,ele passava a ser um personagem,e portanto,não mais podia controlar ou saber do que acontecia fora de sua cena.Não sabia então,que a mãe da amiga de Isabela,aprontou para a filha uma festa surpresa,na qual Isabela estava presente naquele horário.

"Marcos abre a porta do apartamento e fica surpreso por estar destrancada,pensa então que Natália está,mas,ao chegar na sala encontra um senhor de aparência bem abatida e cansada,ele logo pensa em chamar a polícia,o velho porém,lhe diz que sabe sobre sua vida,sobre sua mulher,sua filha e sua secretária.Marcos fica desconfiado,mas continua com a idéia de chamar a polícia,o velho então saca um revólver e acusa marcos de ter comprado uma arma para executar sua mulher.Marcos,agora nervoso e com medo,tenta explicar ao velho que há um engano,e puxa o embrulho volumoso de sua valisa,mas o velho está desequilibrado e atira em Marcos duas vezes,que cai sem jeito e morto no chão,junto ao envelope volumoso que se abre,mostrando fotos de Natália e Henrique e ainda uma fita de vídeo que ele comprova ser também dos dois.Na valisa,ainda tinha alguns papéis que seriam de divórcio.Logo se escuta uma correria por todo o prédio,o velho vê Natália à porta com a face surpreendida e só.

Tempos depois acorda na cela de uma cadeia,e tem uma parede cheia de bilhetes que ele mesmo escreveu,todos com a mesma mensagem:

Reescreva-me e apague-a,

Para quem ler o caderno.”

É claro que ele só passou a escrever tais coisas,depois que viu o que tinha feito,percebeu que no seu julgamento não foram citadas fotos ou fitas de vídeo,percebeu que Natália tinha um semblante despreocupado,e principalmente,percebeu quem era Natália de verdade em um dia de visita,quando,de frente para ele,através do vidro,ela escreveu:

“Obrigado pela minha história”.

Surpreendeu-se com a mensagem,surpreendeu-se com a Natália que estava à sua frente,que criara,e surpreendeu=se com a base da mensagem,era um papel pardo,era o envelope,o mesmo usado no embrulho volumoso que continha as fotos,a prova de sua traição,tais provas nunca foram encontradas,pois assim como aquela mensagem que só o velho leu,todo o resto foi queimado.É claro que o os bilhetes do Romancista se dirigiam a mim,mas eu não poderia obedecer às ordens de um,agora,louco.Deixei que o tempo passasse e o Romancista aprendesse com seus próprios erros,afinal,quando se escreve um romance,não se deve manipular seus personagens e sim deixar que a história corra naturalmente,deve-se apenas dar a ela,início meio e fim,e foi o que eu fiz quando rasguei a maldade de Natália e escrevi:

"O velho louco que assassinara Marcos,foi condenado a prisão perpétua,mas por seu estado,passou seus últimos dias de vida em uma clínica psiquiátrica.A viúva,que herdou todos os bens do falecido marido,foi amparada por Henrique com quem mais tarde se casou e teve mais um filho,João.Dizem que eles foram muito felizes até a sua morte."

Allan Bonfim.

terça-feira, 15 de março de 2011

Sertãozinho

Acorda,abre a janela e se tá sol,sai correndo rumando o quintal.Junta a palha,cata a folha,chuta o cachorro e entra "pra dentro".A mãe lhe penteia o cabelo e o pai lhe traz flores e a batata da terra que colheu,Na casa simples de dois cômodos,existem sala-cozinha/quarto dos pais-quarto da filha.O banheiro é lá fora e trancado pra o vira-lata magrelo e feio não entrar.Cachorro ali dorme no sereno,cuidando da plantação bem no meio do terreiro.Cachorro feio,com a aparência descascada,leva é chute.
Ás nove horas,Sinhô Marcílio passa trazendo o vestido verde e desbotado de velho,com tanto remendo que Sinhô nem cobra mais pra costurar.Ela corre no terreiro,bota na cara um sorriso e levanta poeira na correria.Pega o vestido,agradece e entrega o pão de batata que o pai faz,orgulhoso não aceita nada de graça.Sinhô Marcílio se despede,mão na ponta do chapéu e olhos nos peitos da mocinha.
A mãe lhe recebe com um tapa por levantar poeira,rosto franzido de raiva passageira,coisa de filha,ela veste a roupa verde e velha e pede ajuda a mãe.O pai fica lá fora,nessas coisas não se mete,vai fingir cuidar do cachorro e fica chutando de leve,o animal acostumado a "bicão",acha até que aquilo é carinho.
- Demora,sô ! resmunga o pai cansado de fritar embaixo do sol.
A mãe abre a porta e a única janela da casa,a mocinha tá pronta com a palha envolta na cabeça e nas pernas,a flor presa no cabelo e o vestido velho,e ainda acha que está bonita,e até estaria,se não fosse a palha,a flor e o vestido,assim mais parece um espantalho de jardim.A mãe lhe sorri,o pai abraça e dá a "bença" à filha,que sai correndo pela estrada levantando uma poeirada danada,não sem antes se despedir do cão com um chute monumental,vai sumindo ao longo da estrada de barro,cantando:
"Olê,olá
quero vê quem vai pulá
a carniça mais fidida
que vem lá do Ceará"
Afinal,era Carnaval.
Allan Bonfim.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Pra Tudo Se Acabar Na Quarta-Feira

A grande paixão
Que foi inspiração
Do poeta é o enredo
Que emociona a velha-guarda

Lá na comissão de frente
Como a diretoria
Glória a quem trabalha o ano inteiro
Em mutirão

São escultores, são pintores, bordadeiras
São carpinteiros, vidraceiros, costureiras
Figurinista, desenhista e artesão
Gente empenhada em construir a ilusão

E que tem sonhos
Como a velha baiana
Que foi passista
Brincou em ala

Dizem que foi o grande amor de um mestre-sala
O sambista é um artista
E o nosso Tom é o diretor de harmonia
Os foliões são embalados

Pelo pessoal da bateria
Sonho de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Mas a quaresma lá no morro é colorid
a
Com fantasias já usadas na avenida
Que são cortinas, que são bandeiras
Razão pra vida tão real da quarta-feira
É por isso que eu canto


Martinho Da Vila.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Retalhos De Cetim

Ensaiei meu samba o ano inteiro,
Comprei surdo e tamborim.
Gastei tudo em fantasia,
Era o que eu queria.
E ela jurou desfilar pra mim


Minha escola estava tão bonita.
Era tudo o que eu queria ver,
Em retalhos de cetim
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.


Mas chegou o Carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei.


Benito Di Paula.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Vida

Ele.

Às onze,geralmente eu chegava e ficava estacionado frente o portão cinza e de formato antigo da Florêncio de Melo,número sete.Era alegria quando de lá de dentro como num passe de magia,surgia,com ar alegre aquela linda moça da pele lisa,voz macia,corpo leve como em comercial de sabão em pó ou margarina.Aparecia e ora vinha com mil perguntas que eu respondia calmamente enquanto lhe contava o meu dia,ora calada,me dava um beijo e sorria,que agonia,eu sentia até um frio na barriga.Entrando em casa,ora me puxava ao sofá e de beijos me enchia,festa fazia,ora me abandonava pela sala e pra cozinha corria e falava,falava,falava...enquanto a comida,até então desconhecida por mim e por ela esquecida,queimava,queimava,queimava..
E até que era bom o queimado,trazia aquele amargo esperado que antecedia a discussão inevitável sobre a vida de casado,bla,bla,bla,blé,blé,blé,deve ser "coisa de mulé",essa coisa de implicar com qualquer coisa.Fala e fala,depois se cala e me encara,e eu ficava lá,com a cara,a coragem e a comida e enchia a boca,pra não lhe deixar saída ou pergunta a fazer,e sem nada a fazer,fazia o que todo ser-humano faz,ia assistir tevê.E mesmo assim continuava a me encarar subitamente enquanto eu lhe negava o olhar sem muito sucesso,não resistia,e de relance ela ria,eu estava ali olhando,pensando,olhando,pensando...como aquela linda criatura veio a ser minha,e me ver com satisfação,me precisar com necessidade,sentir felicidade em estar junto por mais um verão,e no sofá assistindo o Jô,me beijou e implorou pela cafeteira nova que mais tarde ganhou - "cafeteira,ora veja" - como pode se dar satisfeita e feliz apenas por uma cafeteira?
O filme começa e ela já boceja,eu,confortavelmente desconfortável,deixo servir de apoio para o seu corpo no sofá duro e morno - "café? precisamos é de um sofá novo" - é inevitável não olhar para o sono recém-chegado que a domina,e lhe inclina a cabeça para trás como um jovem "nenê" lutando contra o próprio sono e impotente até para controlar o tronco.Então eu a agarrava e a levava,e como o mesmo nenê ela sorria de olhos fechados,sorriso,característica mania,só aí a entendia.

Ela.


Colocava a lasanha no forno por volta das dez,arrumava a cozinha,o quarto,lavava os pés,botava pra fora o lixo,trocava o sapato,sentava e descansava,tava tudo arrumado,sabia e aguardava porquê,lá pelas onze,enfim ele chegava e estacionava frente ao portão,como visita ou um desconhecido,soltava um sorriso tímido e medroso,eu lhe abria o portão,ele retirava a mão do bolso sempre com alguma surpresa,um bombom que seja,dava-lhe um abraço,ele me beija.Lembrava nosso tempo de boemia (só terminávamos a noite quando o bar era "casa vazia") .Aí eu entrava em casa e se estivesse sem nada a fazer,com ele fazia,no banheiro,quarto,sala ou cozinha,esquecia até da comida ou da vizinha que,"ocasionalmente",tudo ouvia.Depois sentávamos à mesa,ora "tudo beleza",ora uma dureza,a discussão começava e como em toda briga de casado,eu falava e ele ficava calado,sentado,como se nada estivesse acontecendo,comendo,comendo e comendo,parecendo conhecer bem sua esposa,sabia que mulher implicava com qualquer coisa.Sentava no sofá e era eu o encarando e ele desviando o olhar,totalmente sem sucesso,de vez em quando,confesso,me assustava quando ele fixava o olhar em mim - "o que pensaria o moço da roupa de cheiro carmim?" - Não queria realmente saber,o rapaz estava ali,eu sabia,para me proteger,me gostar,acariciar e socorrer pra todo tipo de necessidade,era gostoso fazer de todo dia o nosso céu e inferno,melhor ainda a alegria de estar junto por mais um inverno.Acabava de jantar e deitava comigo no sofá,fez cara feia quando pedi a cafeteira,sua posição era desconfortável mas se ajeitava de uma maneira bem agradável (para mim),era simplesmente amável sua preocupação,então envolta em suas mãos,grandes mãos,eu me sentia a pessoa mais segura do mundo naquele momento,sim,era um absurdo,porém era uma grande fortaleza aquele sentimento,esquecíamos o que estavámos vendo,fosse o Jô,fosse o jogo - "precisamos de um sofá novo" - ele diz,eu concordo e acordo do cochilo que tirava,ele brinca - "tá de baba" - eu cochilo,mau consigo levantar os cílios,enfim meu pescoço deixa cair a cabeça sobre seu braço e,ao pé d'ouvido,me sugere um amasso,um completo safado,eu rio e tento afastá-lo até cair em sono profundo,ele fica mudo,aí então sai do sofá e vai não sei para onde,como essa gente que se esconde,e como foi,volta.De repente,desce uma mão quente,que me suspende como a mão da mãe na praça que embala seu belo "nenê" com calma e graça,eu rio,ele vai pro quarto me levar,só aí é que entendo todo o seu olhar.

Allan Bonfim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Mariana

Sexta-feira,5 de Novembro,eu me levanto,tomo banho e saio pro trabalho,trânsito até que tá tranquilo,não ligo pois eu sempre tô 30 minutos em cima do horário normal.Chego ao prédio e vejo Rosana,da recepção,fofocando como sempre,digo um "bom dia" e entro no elevador.
Ao chegar no meu andar vejo que ainda é cedo pois metade dos funcionários ainda não estão.Me recolho então à minha sala e lá fico por uns trinta minutos até começar a ouvir o "bla,blá,blá" e o "tititi" do lado de fora.É sempre a mesma coisa,chega o Pacheco falando mau do Renato que não gosta da Dona Cida que apóia o Pacheco e dá mole pro João que é caído por Sílvia que odeia o Pacheco e reclama com o Renato.Tudo igual,e eu lá no computador vendo as estatísticas de vendas,espero mais uma hora,observo o relógio e vejo que,o que eu já previa,poderia se cumprir,ela não vem,saio da minha sala,dou uma volta pelos corredores,digo "olá" ao Pacheco e peço a Sílvia que me mande algumas notas fiscais,volto a minha sala para pegar alguns papéis e dar início a reunião que tratará da nomeação dos cargos de sub-gerência,gerência e diretoria.Deixo algumas folhas caírem do envelope,junto com as demais,uma lista me chama a atenção,é a lista de possíveis nomes e critérios que ela me fornecera,lembro que passamos uma noite acrescentando e eliminando nomes,a folha ainda tem o seu perfume,de repente escuto alguém batendo à minha porta,com uma batida característica,sim,é ela.
Ao me levantar despreparado,quase caio,ela está linda,soltou o cabelo,escolheu um tom mais escuro de batom,usa uma blusa com decote em "V" junto com um colete e uma saia que termina antes dos belos joelhos,se equilibra com destreza em um sapato de um alto salto,tudo em tom meio avermelhado.Tem na face um ar altivo como nunca vi antes,me golpeia com um frio "bom dia,Sr. Santiago" e me pergunta sobre a reunião,com uma objetividade que me incomoda.

Logo depois de saber que a reunião já vai começar,se vira,e lá vai ela pelos corredores levando olhares,desejos sórdidos,gemidos retumbantes e todo o meu coração até a sala de reuniões.Logo a reunião começa respeitando os padrões de pontualidade da empresa e de Mariana,todos os "cabeças" da empresa estão presentes,sento em minha cadeira,a da cabeceira,e observo Mariana executar o discurso de introdução à reunião,estão todos quietos e voltados para lá como hienas olhando um suculento pedaço de carne,ninguém dá um "pio" durante a reunião,ela sabe chamar para si a atenção e mantê-la por quanto tempo for preciso.
Ao serem anunciados os nomes das Sub-gerências,gerências e diretorias todos riem e aplaudem Mariana pouco se importando com quem vai ou quem fica,como se naquele momento existisse apenas ela,não se importa o Renato de receber ordens de Dona Cida,não se importa o João de ficar longe de Sílvia,pois ela está lá,falando decidida,sorrindo,é a conciliação perfeita,chego até a pensar que se Mariana estivesse à frente dos projetos de paz da ONU,todas as guerras e conflitos já teriam sido resolvidos.Na verdade,acho que eles só pensarão nos nomes daqui há uma hora,quando o decote,a saia,e as pernas de Mariana já terão dado um tempo em sua cabeça,quando não mais se poderá fazer objeções ou mudanças,ela é o golpe perfeito.
A reunião acaba e como sempre,após ser ovacionada por toda a sala,Mariana aguarda à porta e cumprimenta a todos da fila que se forma para tocar a musa da empresa,eu aguardo o último obcecado sair e a chamo em minha sala,ela sorri e me acompanha,lhe entrego os papéis de exoneração e os de posse.
- Então,por hoje é só,Ricardo.
- Sim,por hoje é só.
Caminhamos juntos até o elevador e nos encontramos com Dona Cida que também espera.Descemos pelo elevador calados,como dois estranhos que nunca se viram antes e,ao chegar no térreo,nos despedimos de Dona Cida e vamos em direção a portaria,já fora do prédio,se encontra parado o táxi que chamei,eu estendo minha mão,ela pega e me olha,nós dois apertamos com firmeza.
- Bom fim de semana Srtª. Calábria.
- Um ótimo fim de semana para todos nós,Sr. Santiago.
Um jovem rapaz acena para ela que,ao vê-lo solta rapidamente a minha mão,deve ser algum namorado.Eu entro no táxi e ainda vejo o abraço e o beijo com os quais sempre sonhei,eles se viram e dão-se os braços.

O que não sabe o tal rapaz é que vai de braços dados com o sonho de muita gente e o meu mais puro amor.
- Até segunda,querida Mari.

Allan Bonfim.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Última Dança Do Vereador

Cheguei no bar,ele já estava lá,sentado à mesa do canto,a telefonar,terno e gravata,todo baleado,olhar perdido e um pouco cansado.
Vereador tava preocupado,se naquele dia tinha sido de morte jurado,na Terra seria o fim do seu mandato.
Me prestou um olhar safado,tal qual estes homens brutos,sem papo,indelicados.
Convidada por alguns chegados em uma mesa do outro lado,sentei.
Em sua mesa,reparei,nada de cerveja,somente uma valisa cheia,e dois ou três telefones,entre suas mãos nervosas e disformes.
Cabelo despenteado,as pregas no rosto enrugado,tudo demonstrava seu estado.
Tomei pena do homem findado,denunciado pelo Estado,julgado e condenado,inda sonhava ser deputado.
Testa franzida,o olho molhado,desinibida fui encará-lo,sua mão era fria,o convidei pra dançar.
Deixei que o resto acontecesse,só pra ver no que ia dar,não negou o interesse,e fomos á pista do bar.
E mão na bunda era pouco,se esfregava em meu corpo feito um louco,atraiu olhares indignados de um invejoso.
Não entendiam nada os jovens e idosos que olhavam da estrada,do lado de fora do bar.
Agora sorria à toa,alegria de menino no olhar,não entendia porque interessava à mulher tão boa.
Até queria me beijar a boca,relutei,tenha calma retardado,"não sou tua patroa".
Lhe beijei enfim e não foi tão mau assim,meio seco e molhado,doce e amargo,meio sem fim.
Borrou-me o batom,pedi "Chatterton" e fui ao banheiro,vi vereador me acenar ligeiro.
Retocando o vermelho,percebi que lá no meio,entre o balcão e a pista,algo acontecia.
Saí do banheiro e minha suspeita era real,caído no chão do bar,a sangrar e sangrar,afinal.
Ainda olhou-me e sorriu,passei por seu corpo,e assim como os outros,ignorei o Edil.
Um pivete inda apareceu e lhe tirou o dinheiro,jogou a carteira por sobre o peito escondendo o buraco certeiro.
Quando saí do bar,ele ainda estava lá,caído perto da mesa do canto,terno e gravata,todo baleado.
Tinha um olhar perdido e um pouco cansado,ao lado de um copo quebrado,e um celular que gritava,com defeito.
No ar,senti no silêncio o grito de "bem feito",à força bruta e com sangue derramado,enfim terminara seu mandato.


Allan Bonfim.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lembrei da Casa Amarela

Hoje passando por uma rua dessas com cara de antiga,com casas de estrutura tradicional,com santinho no telhado e tudo,lembrei da casa amarela,de Luana,de Mamãe.Vi o quanto que ainda tenho pra falar,pra esclarecer a quem importe,ainda o que falta por andar,por escrever.Os bairros que não visitei,os bares que não conheci.
Me lembrei da beleza nos olhos molhados de um velho dono de bar falando de seu pai,pensei no meu velho,pensei na minha vida,minhas irmãs,meus medos secretos e os explícitos.Eu vi o garoto da bicicleta que gostava de vento e rodopiava no quintal,senti na boca o gosto do suco de manga,o gosto azedo de ameixa,o cansaço depois da correria à toa.A coca naquela manhã depois da ressaca num lugar cinza ao lado de Luana,e pensei na sua morte também.
Levantei a cabeça e tomei certeza daquilo que não quero acreditar e jamais me farão mudar de idéia,do quanto mudei e talvez ainda vou mudar,dos erros que cometi e não me arrependi,afinal me trouxeram até aqui,e onde é aqui?
Hoje lembrei do Maranhão,da menina do vestido velho,dos cachorros e gatos,das árvores e das estradas,e das caras da gente que não mais vi,como estarão hoje?
Me peguei com uma certeza única e exata,sei que,ao fim do dia,terei muito mais a escrever,a amar,a fazer.E já não me surpreendo com a tristeza,me disseram que a vida é cíclica e às vezes eu concordo.Jamais terei pena,jamais poderei voar,o que não diz se eu tenho asas ou não,sou na verdade,um anjo paralítico,e pra quê ser anjo? ...sou é um pobre diabo.
Eu enxerguei os preconceitos mais sujos nas pessoas mais limpas,ah,essa gente de "cabeça aberta" tem uma cuca tão dura.E falar em vovó,sempre sentada com seu "porrete".Não julgue as pessoas,elas realmente são meras crianças inocentes,por outro lado,as "crianças inocentes" são espertas criaturas dançando e se exibindo para a impunidade de ser pequeno e pronto.Tô pensando pra onde vai a lama,essa nossa.Os nossos gritos até onde alcançam,nossas vontades não realizadas,onde vão parar?
Eu quero mais,quero fazer crônicas,quero ser crônico,mas nem tanto,a gente quer sempre resolver tudo,ser algo perto do perfeito,ser "aquela Coca-Cola toda",mas eu ficaria satisfeito em somente ser aquele simples copo d'água que lhes quebra o galho e lhes causa o melhor sentimento do mundo,matar a sede,pois,amar é com vocês.


Allan Bonfim.